segunda-feira, 28 de abril de 2025

0


Distante, no horizonte avermelhado da triste tarde, seis pessoas carregam um caixão. Não se cansam, não param e jamais atendem pedido, súplicas pela vida perdida, devolução da casca vazia repousante no interior da caixa de madeira. O destino da urna de seis alças é ser carregada; o de seus transportadores carregá-la.  

Movimentos circulares e moscas zunindo, atraídas pelo mal cheiro não os incomoda. Sabem que os insetos estão ali pelo mesmo motivo que eles; pela morte. 

— O que acham do peso desse? — perguntou o da ponta esquerda do lado de cima do caixão. 

Era magro de corpo todo coberto por faixas brancas; de terno puído, camisa branca, encardida, sandálias de couro, velhas. Na cabeça usava uma boina de feltro com um buraco de bala no lado esquerdo. O rosto todo fechado de faixas, donde saltava duas manchas negras na altura dos olhos. Atendia pelo nome de Último Dia.  

— Já vi mais pesado — respondeu-lhe a da cabeceira, ponta direita, com voz rouquidão-fumante.

Ela tinha faixas apenas nos olhos, em forma de xis. Era mais alta que o irmão ao lado, magra, careca, olhos grandes e azuis que apareciam vagamente entre panos. Trajava um vestido antigo, branco, sujo, sem alças. Tinha um pé descalço e no outro uma sandália de couro. Respondia pelo nome de Nunca Mais.

O do meio, do lado direito, era o mais forte dos seis. Camisa amarela aberta mostrando o peito enfaixado e o estranho colar que tinha um pingente exagerado de caveira. Calça social bege, sapatos pretos, descorados, fechados. Tufos de cabelo crespo saltavam-lhe de pontos da cabeça e um cigarro aparecia nos seus lábios entre faixas. Chamava-se Fome e disse:

— Eu penso que todos pesam o mesmo tanto, o que acham?

— Vamos discutir isso de novo? — perguntou a do meio, do lado esquerdo.

Esta era miúda, do corpo completamente envolvido por faixas, magra, de chapéu de palha exagerado e óculos redondos. Vestia uma jardineira maltrapilha e sandálias de plástico transparente. Seus irmãos a conheciam por Sem Futuro.

— Gosto de imaginar que cada um é todo novo, inclusive no peso — falou o da parte de baixo, lado direito do caixão.

Conhecido como Artesão, ele era um sujeito corpulento, loiro, barba comprida, de macacão marrom e sapatos de bico de ferro. Só suas mãos eram cobertas por faixas brancas sujas de terra.

— Eu tenho uma ideia — disse a pessoa que ocupava a última alça do caixão. Ele era o mais esquisito do sexteto.

— Ideia? Da outra vez que teve uma, demos nova vida a quem carregávamos — disse Último Dia. 

— Aquilo foi obra de Pó. Eu sou Sonho.

Sonho e Pó estavam dentro do mesmo corpo que era enfaixado pela metade. Ombros caídos, braços e pernas finos. Usavam uma camisa social azul arregaçada nas mangas e abotoada errada. A calça era preta com a barra arrastando pelo chão. A metade do rosto visível, fino, nariz empinado, olho preto, sobrancelha quase inexistente. O cabelo liso, negro e brilhante, escondia-se atrás de uma orelha de abano. 

— Poderíamos diminuir o passo, o que acham? — continuou Sonho.

— Por qual razão? — indagou Último.

— Só para ser diferente.

— Eu topo! — falou, exaltante, Sem Futuro.               

A caminhada diminuiu de intensidade, Fome puxou a sua alça com força, tentando recuperar o ritmo de antes.

— Precisamos de harmonia ou vamos derrubar o caixão — pediu Último Dia.

— Culpa de Sonho ou seria Pó? — ralhou Artesão.

— Tudo bem, vamos manter o ritmo de Sonho.

A ordem de Último Dia foi imediatamente obedecida e não demorou para Tarde alcançá-los.              

Tarde era um menino descolorido que chiava igual uma tevê antiga mal sintonizada. Tinha um brilho forte, tremulante, careca, de jeans, camiseta e sandálias de borracha. Estava ali para apagar as luzes do dia. 

— Que há com vocês? Nesse passo vão chegar de Manhã. Já pensaram nisso? Ela toda brilhante, irritante, curiosa e feliz, fazendo muitas perguntas! Acelerem o passo aí!

— Queremos fugir da rotina — explicou Sem Futuro.

— Isso é pior do que eu imaginava. 

— Vá esfriar as folhas, Tarde, não nos amole — Último Dia respondeu, ríspido.

— Qual é, gente? Vou ter que apagar o dia sem que tenham chegado?

— E se parássemos um pouco? — Sonho ou Pó sugeriu.

Houve um silêncio constrangedor. Morte não para; ela é como um encanamento quebrado sob a terra funda: primeiro a rachadura é pequena e quase não escapa água. Pinga fim devagar. A pressão da vida, no entanto, vai aumentando o tamanho da rachadura; o vazamento ganha mais força. Por fim o cano se rompe e espirra morte, mas ninguém vê.  

Dessa vez Sem Futuro não achou graça na sugestão de Sonho ou Pó. Último Dia, o mais sensato dos seis, matutou sobre as implicações de se levar a cabo a sugestão do irmão. Imaginou, também, que pensamento como aquele só podia vir da cabeça de Pó que nunca respeitava limites. Nunca Mais tinha tanto medo que seu maxilar travou, impedindo-a de emitir palavras. Já Artesão pensou no que poderia fazer além de caixões e túmulos se fosse livre. Fome nem sabia o que pensar ou dizer. 

Tarde foi quem quebrou o silêncio:

— Acho que é melhor cuidar das folhas, fazer noite.

— Pensem, estamos cansados desse leva e traz; dessa caminhada sem fim. 

— Não cansamos, Pó — respondeu Último, irritado. 

— Eu sou Sonho e é claro que cansamos! Acompanhe o meu raciocínio: qualquer distração, uma simples conversa com quem não tem mão presa em alça de caixão é deleite para nós. Exceto Tarde e Manhã, pois já estamos enjoados deles. Todo dia a mesma coisa… 

— Continue — pediu Artesão. 

— O que estou dizendo é que não seria ruim fazer algo diferente. Sei que pensam o mesmo.

A noite já cobria de azul-escuro o céu limpo, ponteando algumas estrelas. O alaranjar de Tarde consistia em um fio luminoso no horizonte. O clima estava fresco e as folhas das árvores balançavam com o vento ameno. O anu-branco agourento piava vez ou outra.    

— Devemos continuar carregando — advertiu Último.

— E vamos — riu Sonho e Pó, afastando pela primeira vez em lugar de proibição, os dedos enfaixados da sua alça do caixão. — Só pararemos um pouco. 

Ouviu-se gritos de não faça isso, tolo, pare, volte ditos por Último Dia e Nunca Mais. Entretanto, um olho confiante-zombeteiro de Sonho e Pó e o afastamento da alça deram peso insuportável ao caixão. Frio intenso subiu pelas faixas dos seis carregadores, suas cabeças preenchidas por muitas visões, vários caixões, muitas caminhadas, covas, pás, barulho de terra sobre madeira, colher de pedreiro passando pelo cimento. A caixa final veio ao chão, quebrando-se. O corpo rolou e caiu de bruços sobre a terra fofa enquanto os cinco carregadores se olhavam, assustados. Parados. As faixas se soltando, ganhando o solo, matando mato... 

Assim que se deu conta do que tinha acabado de acontecer, Fome tentou enrolar de volta suas faixas sem sucesso. Apavorado fugiu. Sem Futuro se foi saltitando e cantarolando “livre, livre”. Artesão pediu desculpas e se afastou, devagar. Nunca Mais correu, chorando. Sonho e Pó já tinha sumido. Restava Último Dia.


quarta-feira, 23 de abril de 2025

Bem-vindo

Esta postagem é apenas de testes e serve para inaugurar este espaço no qual pretendo divulgar fragmentos de histórias dos meus irmãos, nossos antecessores e sucessores. Eu sou Humberto, mas fui conhecido como Último Dia.